Léo Ferrari - 1976
Recentemente, estive com alguns amigos no MASP, um museu maravilhoso de São Paulo. Durante o passeio, meu grupo de amigos - o qual era composto exclusivamente por escritores amadores - se propôs a escrever um conto sobre alguma obra de arte da exposição que nos chamasse a atenção, e este foi o que escolhi. Provavelmente meu texto não chega nem perto da mensagem que Ferrari quis passar, e devo admitir que antes dessa exposição, jamais conhecera alguma de suas obras. Ainda assim, segue a história que a imagem me transmitiu.
A
paisagem que surgiu perante seus olhos, era quase como um sonho, ou uma
miragem. Era no mínimo algo inacreditável. Jamais se imaginara diante daquela
imensidão.
Sem
pestanejar, ele colocou o cavalo em movimento. Sua história ficava para trás a
medida que avançava, e não se arrependia. Não havia do que se arrepender. Sua
história ficaria no passado, nada mais do que simples lembranças, mas era algo
valioso, por isso, elas estariam sempre consigo. Sempre carregaria para
qualquer lugar que fosse, porém, jamais retornaria.
O
deserto era um lugar selvagem, frio durante as noites e solitário. Terrível
para viajantes, e perfeito para bandidos. Era o que todos lhe diziam, e por muito
tempo acreditou nisso. Acreditou em cada uma das fofocas que lhe chegavam aos
ouvidos. Mas agora que via tudo com seus próprios olhos, ele podia ver que não
estavam errados. Entretanto, também não estavam certos.
O
deserto era vivo. Seus animais e paisagens eram fascinantes, e cada dia se
sentia mais apaixonado por aquele mundo novo. Adorava quando o vento batia mais
forte nas dunas e fazia tudo dançar, uma dança solitária que formava novas
dunas. Era lindo.
O
cavalo árabe era seu único companheiro naquela longa jornada sem previsão para
o fim. Com o tempo, aprendeu a se guiar pelas estrelas e conheceu vilarejos,
culturas, pessoas, animais, e muito mais do que podia imaginar. Era tudo... Inacreditavelmente
único. Um sorriso sempre lhe escapava com facilidade quando revivia cada um
desses momentos, principalmente agora que estava com os dias contados.
Estava
velho. Tudo parecia ter se passado a luas, séculos, encarnações... Tudo tão
distante... E ainda assim, se fechasse seus olhos, ainda poderia se ver naquela
aventura louca, apenas o amigo equino ao lado, o sol quente que lhes roubava a
força, e a felicidade espontânea ao se deparar com uma fonte de água fresca.
Sua
vida, no fim, havia sido exatamente como sonhara. Não mudaria nada, nada. Os olhos fechados mergulhados
naquela imensidão que era só dele, e isso ninguém poderia lhe tirar. Nunca.
“Não
seja tola, Kawo. Eu tenho que ir.”
A
jovem a sua frente, lhe lançou um sorriso tímido, confuso, e então o velho
notou. Havia feito novamente.
“Desculpe?”
Ela
lhe questionou, e ele abaixou o olhar.
Não
conhecia a moça, mas por um segundo, um instante que fosse, ela era Kawo.
Estivera de volta a sua juventude, e tudo se embaralhara novamente. Passado,
presente... Tudo as vezes parecia ser uma coisa só. Às vezes, esquecia-se de
coisas mais recentes, de lugares, de rostos, de palavras... Tudo se esvaindo
como areia entre os dedos.
Era
o velho maluco da aldeia. Aquele que falava sozinho, que se perdia e se
esquecia da localização de sua casa. Normalmente era encontrado pelos familiares
zanzando pelo vilarejo, mas as vezes isso demorava dias, e em seus momentos de
lucidez, sentava-se em um canto e chorava. Era um estorvo.
Chorava
por ser sentir um inútil, mas principalmente por perder aquilo que tinha de
mais precioso. Não ligava para o dinheiro que havia juntado, ou para suas
propriedades. Apenas queria lembrar-se para sempre do que vivera. Do que um dia
havia feito sozinho, apenas ele e um cavalo – que em sua ingratidão infantil,
jamais lhe nomeara.
Tudo
continuava indo embora, tais quais as lágrimas que não cessavam. O rosto sereno
de sua mãe, a primeira que vez montara um cavalo, a primeira vez que presenciou
o nascer do sol entre as dunas... – o choro que lhe escorria era como uma
despedida forçada, um adeus inesperado, mas inevitável. – a primeira vez que
segurou seus filhos, o momento em que percebeu que queria ficar para sempre ao
lado da mesma mulher. Tudo, tudo estava sendo roubado dele.
A
sua frente, agora, não havia mais deserto. Não havia mais vilarejo. Eram apenas
rabiscos confusos que jamais seriam decifrados, nem por ele, nem por ninguém.
Quem ele era, ou o que fora, a muito já havia se perdido. Apenas uma casca
vazia restara parada em frente ao nada, as lágrimas salgadas secas em seu
rosto. A expressão alheia, sem entender absolutamente nada. Sem reconhecer
sequer o nascer do sol sobre a dunas que tanto amara.
No
fim, ele havia se tornado apenas uma coisa.
Apenas
linhas de tinta trêmulas e pouco decifráveis em um papel gasto.


.full.558049.jpg)